ARTIGO – O Coeficiente da Maturidade: Onde a Leitura Cura e a Resiliência Resiste

Entrar na universidade aos 52 anos, após décadas de afastamento dos livros, não é apenas um ato de matrícula: é um manifesto de coragem. Para muitos, a graduação é o rito de passagem para a vida adulta. Para mim, tem sido o campo de batalha onde provo, todos os dias que a mente não envelhece quando a vontade de vencer é maior que o desgaste das células.

Minhas manhãs não começam com o despertador, mas com o ritual do monitor de glicemia. Acordar com a taxa alterada é o primeiro desafio de uma jornada que inclui a gestão da pressão alta e uma ansiedade que insiste em sussurrar que eu não deveria estar ali. É uma luta silenciosa. Enquanto o sistema acadêmico ignora as particularidades biológicas de quem já viveu cinco décadas, eu luto para manter o equilíbrio entre os níveis de açúcar no sangue e a concentração necessária para entender teorias complexas.

No primeiro semestre, o que encontrei foi o silêncio institucional. Um acolhimento inexistente que muitas vezes trata o aluno maduro como um “corpo estranho” no território dos jovens. Mas, no meio desse deserto de empatia, a Geografia Econômica Prof. Dr Diogo  Marcelo Delben Ferreira de Lima se tornou minha bússola. Ali, encontrei mais do que conceitos sobre fluxos e capitais: encontrei um mestre que exercia a resiliência no trato humano.

Ele não me ofereceu facilidades por causa da minha idade ou das minhas condições de saúde. Pelo contrário, ele me deu maior voto de confiança que um aluno poderia receber ao me instruir com firmeza: “Para escrever corretamente você precisa ler. Ler muito”.

Aquelas palavras foram o meu verdadeiro remédio. Segui esse conselho como quem segue uma prescrição médica vital. Eu li entre uma medição de glicose e outra. Li quando a pressão subia e o mundo girava. Li para provar a mim mesmo que o hiato de tempo não tinha apagado minha capacidade de compreender o mundo. Onde o acolhimento institucional falhou, o rigor pedagógico e o incentivo de um único professor me salvaram.

Hoje, no segundo semestre, olho para o meu histórico e vejo um coeficiente de 9,02. Esse número não é apenas uma média aritmética; é o rastro da minha sobrevivência. Ele é composto por cada página virada durante as crises de ansiedade e por cada parágrafo sublinhado quando o corpo pedia descanso, mas a mente pedia conhecimento. Minha nota máxima é a resposta ao silêncio do sistema.

Não posso encerrar este artigo sem prestar minha mais profunda e sincera gratidão ao meu professor de Geografia Econômica. Em um sistema que muitas vezes nos enxerga como números frios, ele foi a exceção que me enxergou como um ser humano em plena evolução.

Obrigada por não subestimar minha trajetória. Seu conselho de que eu deveria ler exaustivamente foi o acolhimento mais real que experimentei: o tipo que desafia em vez de apenas consolar. Sua resiliência em me guiar provou que o intelecto é soberano sobre as limitações do corpo. O meu 9,02 também é fruto do seu olhar humano. Obrigada por me mostrar que a geografia da vida se altera quando decidimos ler o mundo com profundidade.

Por: Jovany Aparecida de Souza, aluna do 3º Semestre- Bacharelado de Geografia na UFMT – Universidade Federal do Estado de Mato Grosso.

 

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