“Espiritismo não é coisa do demônio; é fé raciocinada com lógica”

Orações, reuniões, rituais, símbolos, acreditar em um Deus e em reencarnação. Afinal, existe uma melhor crença a se seguir? Para a assistente social e membro da comunidade espírita, Darci Ranghetti, a melhor religião é aquela que torna o homem melhor. “Essa é a nossa busca”, disse ela.

Voluntária há mais de três décadas no Centro Espírita Benedito da Cura, que completa 54 anos em 2022, ela recebeu a equipe do MidiaNews e falou sobre a religião e os estigmas que a cercam.

Para ela, a falta de informação, conhecimento e, principalmente, o interesse em buscar compreender o que é diferente é que alimenta o preconceito das pessoas em relação ao espiritismo. “Infelizmente, a ignorância é a mãe de todos os vícios”.

“As pessoas que não têm familiaridade com a doutrina dos espíritos, não acreditam que somos espíritos, que existe reencarnação, e não acreditam na pluralidade das existências. Elas não buscam nem ao menos saber como e de onde a religião surgiu”, disse.

Essa falta de informação e interesse faz, segundo Darci, com que as pessoas enxerguem o espiritismo de uma forma fora da realidade, inclusive a confundindo com outras religiões como umbanda, candomblé, islamismo entre outras.

“Dizem que é mexer com os mortos, que deve ser coisa do demônio e não é nada disso. Somos a doutrina dos espíritos e o nosso tripé, nossa base, é a ciência, a filosofia e a religião. É uma fé raciocinada com lógica”, explicou.

A voluntária esclarece que a doutrina acredita na imortalidade da alma, mas que a evolução dela depende única e exclusivamente de cada indivíduo e da sua disciplina.

“A fé é um trabalho, um exercício a ser conquistado individualmente por cada um de nós. Nosso propósito nessa vida é sair melhor do que chegamos e a pessoa tem o livre arbítrio de fazer o que achar melhor”, disse.

Ela ainda desmentiu a existência de qualquer tipo de ritual ou utilização de símbolos durante as reuniões e estudos.

Como chegam ao espiritismo?

Ao longo de anos como voluntária, e pela própria experiência, Darci analisa que em essência as pessoas chegam ao espiritismo pela dor, seja doença ou a perda de um ente querido. Este último foi o caso dela.

Em busca de respostas aos porquês da vida, a voluntária garante que no espiritismo as pessoas encontram esse esclarecimento.

“O principal é o autoconhecimento. Se perceber nessa ou naquela mudança e quais são as suas tendências. Estamos aqui para domar as más inclinações e más tendências”.

Conforme Darci, chegam à casa pessoas de todas as classes sociais e profissões, com os mais variados tipos de problemas.

“A doutrina espirita é uma doutrina consoladora. Ela fala que tudo passa e que é para confiarmos em Deus”.

Uma oração de cura

Uma das coisas mais importantes no Centro Espírita Benedito da Cura é o passe, que consiste na transmissão de energias do médium passista e dos espíritos a pessoa presente.

“É onde lidamos com almas doentes que, às vezes, estão tão agoniadas, aflitas e depressivas, que na hora de fazer o passe, posso sentir no meu corpo, no meu coração, o que a pessoa está sentindo. É tão forte para quem faz que a deixa exausta”, explicou Darci.

De família espirita e católica, Dona Juraci Lara, de 71 anos, disse não ver problema em frequentar e seguir as duas religiões. “Vim receber o passe, porque gosto e vou na missa também. Deus é um só”, afirmou.

No dia em que a reportagem foi até o centro, Juraci estava acompanhada da filha, da bisneta e do genro. “Gosto de mostrar os dois caminhos aos meus filhos”.

Por outro lado, essa era a primeira vez que Elizeu Benedito dos Santos, de 66 anos, foi ao centro para receber o passe, aconselhado por uma cunhada.

“A gente se sente bem na hora é uma sensação de alívio. O corpo fica até mais maneiro. Virei sempre que tiver a oportunidade”.

De família evangélica, às vezes ele também frequenta outras igrejas a convite dos irmãos. “Não faz mal para ninguém. A palavra de Deus sempre é boa, não importa de onde venha”.

Os passes acontecem todas as manhãs entre as 7h e 9h e, de acordo com a assistente social, nunca é feito com apenas uma pessoa dentro da sala.

Três ou quatro pessoas por vez, com um médium para cada uma delas, entram em uma sala fechada. Os passistas estendem às mãos sobre a pessoa, sem que haja qualquer tipo de toque, e realizam a oração.

O reforço de um estigma

Datada do século 19, na França, e codificada por Allan Kardec, muitos nomes de médiuns conhecidos passaram pela religião.

Um desses grandes nomes foi João de Deus, que foi condenado por crimes de estupro contra fiéis.

Na época influenciou de certa forma. Falaram; ‘Está vendo como é o espiritismo’, reforçando um preconceito que já existe

“Ele acabou falindo pela vaidade. O evangelho nos fala assim, ‘daí gratuitamente o que recebestes gratuitamente’. Podemos dizer que era como se ele estivesse vendendo a mediunidade dele”, explicou Darci.

A assistente disse que a repercussão do caso na mídia causou impacto na religião, muitas vezes incompreendida pelos leigos.

“Na época influenciou de certa forma. Falaram; ‘Está vendo como é o espiritismo’, reforçando um preconceito que já existe”, disse.

“A gente tem que ter compaixão, orar por ele, pedir por ele. Porque todos somos falíveis. Não tem perfeição aqui na terra”, acrescentou.

Um legado de amor e humildade

Por outro lado, um nome que deixou um legado de humildade, carisma, amor e benevolência na religião foi Chico Xavier.

Ele ficou nacionalmente conhecido por suas cartas psicografadas, uma das incontáveis formas de mediunidade.

Dentre seus principais legados para Darci, está o amor e o perdão ao próximo.

“É o maior médium que já ouvi falar nessa existência. Ele era ternura, era humilde, era não, é, porque só voltou para casa no mundo espiritual”.

“Ele veio nos ensinar a amar aqueles que nos perseguem, que nos caluniam, que nos odeiam. Era uma pessoa íntegra, simples, humilde, era amor. Tinha um magnetismo que você poderia estar há 10 metros que dava vontade de chorar, contam os livros. Uma coisa incrível”, completou.

Fonte: www.midianews.com.br

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