Amurverde e a articulação das mulheres rurais por autonomia em MT

Conhecida como Rosinha, Rosângela Aparecida dos Santos morou muito tempo na cidade, diferentemente da maioria das mulheres que hoje integram a Associação de Trabalhadoras Rurais e Artesãs de Nova Monte Verde (Amurverde), organização rural do município de mesmo nome localizado na região norte de Mato Grosso.

De família agricultora, a associada hoje se recorda de quando criança se divertia em apanhar e “rasgar” algodão até a hora de ir para a escola em Maringá, município paranaense onde cresceu. “Eu amava, a gente não colhia muito porque éramos crianças, mas eu e meus irmãos gostávamos de tudo”, conta.

Foi pela colheita da fibra branca que os pais saíram de Eldorado, em Mato Grosso do Sul, quando ela era ainda bebê. Com o decréscimo na cultura do algodão na região, entretanto, a família migrou para a cidade, onde Rosinha trabalhou como auxiliar de educação na APAE e começou um curso para ser cabeleireira.

Imersa no cotidiano da cidade sulista com seu marido e dois filhos, hoje com 23 e 24 anos, à época não poderia imaginar que anos depois viraria agricultora e presidente de uma associação feminina de mais de 30 mulheres da área rural na região amazônica do estado.

A história que proporcionou isso começou anos antes, em 1985, quando o avô de Rosinha migrava para a terra que anos depois tornou-se Nova Monte Verde, município rural localizado a mais de 900 quilômetros de Cuiabá.

A mãe de Rosinha quando foi a primeira vez não havia gostado do local.

“Ele veio e não tinha nada, Nova Monte Verde ainda estava sendo ‘queimada’ e ela não gostou. Mas depois voltou pra visitar de novo e aí tavam vendendo a chácara que hoje é onde a gente mora. Ela ligou, conversou com meu pai e decidimos nos mudar”, conta. Longe dos pais, a mãe de Rosinha passava mal. “Era acostumada no sítio, na cidade passava mal, ficava doente.”

O filho também melhorou de saúde e a agricultora aponta como causa o clima da região, além da mudança no consumo. “Foi uma mudança de clima que ajudou na saúde deles, não gastávamos mais em hospital. A gente começou a plantar tudo novamente e desistiu de voltar pra cidade. Aqui é um lugar tranquilo, a gente colhe verduras naturais e frescas. Na cidade, tem que comprar tudo e o que se compra é mais veneno que qualquer outra coisa”, relata.

A agricultora trabalhava como cabeleireira na cidade e foi funcionária do frigorífico que se instalava no município, mas um acidente de trabalho na esteira a fez voltar com os dois pés para o campo.

Foi quando pensou em reativar uma associação rural da região parada há anos. Com uma diferença: dessa vez seria só de mulheres.

Mulheres com voz e força

No dia 7 de julho de 2017, as mulheres da comunidade Santa Terezinha e de outras comunidades rurais próximas se reuniram em uma confraternização para conversar a respeito da formação.

“Para a surpresa de todos houve presença de um grande número de mulheres do campo e artesãs da comunidade, interessadas em somar as forças para o bem coletivo e em prol da agricultura familiar”, relata o site da organização.

“Havia essa vontade das mulheres de se organizar para conseguir melhores benefícios na vida rural. Em uma ida à Cuiabá, tive contato com várias associações de mulheres e pensei que poderíamos fazer o mesmo”, lembra Rosinha.

A articulação partiu também da vontade das mulheres de obter mais autonomia e visibilidade em seus trabalhos. Os avanços foram sentidos, relata a produtora rural. “Antes as mulheres não podiam falar que eram agricultoras. Ficavam sempre atrás da sombra dos maridos. Hoje isso mudou”, diz.

Jakeline Prado, técnica do ICV, conta que a mobilização e união motivou as mulheres a ter mais voz na área rural e, assim, mais qualidade de vida.

“São mulheres com muitas histórias diferentes umas das outras, quando se une vira uma força muito grande. Há uma busca por se informar, por participar de cursos, melhorar a produção. Hoje elas tomaram a frente, tem autonomia e ganham a principal renda das famílias”, diz. Hoje são mais de 30 sócias na associação, entre trabalhadoras rurais e artesãs.

As mulheres são assessoradas pelo Redes Socioprodutivas, projeto implementado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) com recursos do Fundo Amazônia/BNDES que apoia empreendimentos comunitários nas cadeias produtivas de hortifrutigranjeiros, pecuária leiteira, café, castanha-do-Brasil, cacau e babaçu com métodos de produção sustentáveis e economicamente viáveis na região norte e noroeste do estado.

Com o projeto, o grupo recebeu estufas para o cultivo de hortaliças e teve acesso à assessoria técnica e a novas tecnologias de produção, como as camas de frango. Atualmente as associadas aguardam cerca de 20 aviários garantidos pela iniciativa, mas cuja entrega ficou pendente pelo advento da pandemia do novo coronavírus.

“Estamos caminhando aos poucos, tem mais mulheres querendo entrar. Muitas não entraram no início porque acharam que não ia dar certo, mas agora voltaram atrás”, finaliza Rosinha.

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